A origem do jornal impresso em Vitória da Conquista

Por Luan Vinicius Ferreira, Amanda Silveira, Anne Ellen


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Foto do dia da inauguração do jornal “A Conquista” em 1911. (Foto: Taberna da História)

Em 1911 Vitória da Conquista era apenas chamada de “Conquista”, nome adquirido 20 anos antes quando passou de distrito para cidade, desmembrando-se do município de Caetité. Conquista era uma cidade provinciana, pacata e de costumes interioranos. As carroças eram o transporte da época. Foi no ritmo da tranquilidade, e no lombo de burros, que chegaram à cidade as máquinas que imprimiram o primeiro jornal do município: A Conquista.

Por um caminho de cerca de 230 km, as máquinas viajaram de Caetité para Conquista. Na cidade foi criada a tipografia Minerva – instalada na Rua Município de São Vicente, hoje Praça Marcelino Mendes – que em 11 de maio de 1911 imprimiu a primeira edição do jornal A Conquista, dando origem a imprensa conquistense. A data foi emblemática. Neste mesmo dia era comemorado o centenário da imprensa na Bahia, que havia surgido com a publicação do jornal Idade D’ouro do Brasil, em 1811, criado para homenagear Dom João VI, Príncipe Regente do Brasil, e no mesmo dia do seu aniversário, 11 de maio.

O primeiro periódico produzido na cidade foi uma iniciativa dos advogados Bráulio de Assis Cordeiro Borges e José de Souza Dantas, que eram ligados ao Partido Democrático. O nome A Conquista foi uma forma de homenagear a cidade. Era redigido por Euclydes de Souza Dantas e Manoel Dantas Barbosa. O primeiro, irmão de José de Souza; o segundo, filho de Ernesto Dantas.

A Conquista era impresso em formato tabloide e diagramado em três colunas. No cabeçalho, em letras maiúsculas, o nome do jornal aparecia em destaque; logo abaixo, margeando a página de esquerda à direita, aparecia os nomes do redator-chefe e do redator-secretário, de Souza Dantas e Bráulio Borges, respectivamente; seguia-se então como subtítulo a escrita “HEBDOMADÁRIO [que se realiza todas as semanas] INDEPENDENTE”, o que explicitamente caracterizava editorialmente o periódico, que era de cunho mais político do que noticioso. Das quatro páginas que o compunha, as primeiras – incluindo a capa – eram dispensadas  para artigos e comentários.

“O povo acostumado a sofrer os desares do destino, desiludido pelas malogradas esperanças mortecidas na morosidade de tudo quanto espira, vai mergulhando o espírito na descrença, o desanimo, sarcólogos dolorosos dos seus nobres ideais” [sic]. Assim, Leopoldo Seabra abriu  edição número 16 de 26 de agosto de 1911 com seu artigo “Vias de Comunicação” que, culpando praticamente toda a capa do jornal, em nome do povo, reivindicava do poder público tais serviços para a cidade.

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Jornal “A Conquista” (Foto: Taberna da História)

O “A Conquista” fechou as portas em 31 de janeiro de 1916, quase cinco anos após sua fundação. Segundo o livro A imprensa e o coronelismo no sertão do Sudoeste da Bahia, do jornalista Jeremias Macário de Oliveira, uma notícia publicada em janeiro deste mesmo ano, pelo A Conquista sobre um membro da “Filarmônica Vitória” que havia cometido um crime de sedução, deixou o coronel Paulino Viana de   Oliveira – homem de poucas palavras, comerciante e presidente da sociedade musical – ofendido. Indo tirar satisfações com  o então redator do jornal, o senhor  Hormindo Cunho, rasgou e atirou no seu rosto a edição do semanário.  Desta, também se sentindo ofendido, Cunho matou com um tiro a queima roupa o violência com morte, de que se tem notícia, na  imprensa    do  sudoeste.

 

Cunho   se entregou à polícia, foi julgado, absolvido e, posteriormente, mudou-se para Minas Gerais, fechando o jornal.

Neste mesmo ano, 1916, surgia mais um jornal: O Conquistense. Foi na Praça 15 de novembro que ele foi fundado por Alziro Prates e Odilon Silva. Um pouco mais tarde, em 1917, nascia o A Palavra, fundado por Demósthenes Alves da Rocha e partidários dos Pesduros – como eram conhecidos os filiados ao Partido Republicano Democrático. Após inúmeras brigas partidárias, entre 1918 e 1919 os dois jornais deixaram de existir. Antes de seu fim, na edição do dia 6 de setembro de 1919 o A Palavra noticiava a fundação do “Grêmio Dramático União”, que reunia os intelectuais da cidade: “Muito em breve se organizará nesta cidade uma sociedade dramática, fruto da iniciativa de vários rapazes e que denominará Grêmio Dramático União”.

Na sequência, outros jornais foram fundados na cidade, mas não tiveram grande êxito.  Em janeiro de 1920 Alziro Prates abre o seu segundo semanário, A Notícia, que sobrevive até outubro de 1930, tendo como principal causa a Revolução de Vargas.

A década de 30 foi marcada pelos jornais O Combate e Avante. O primeiro, inicialmente tinha como redator-chefe Flávio Dantas, em parceria com Camilo de Jesus Lima e Clóvis Lima que eram   redatores.   Além   da   relevância   política   apoiando   inicialmente   a   Aliança  Liberal, movimento de esquerda, o jornal era importante culturalmente em seus 35 anos de existência no cenário Conquistense. Deixou de circular em maio de 1964, com a chegada do Golpe Militar na cidade. O segundo foi fundado e dirigido pelo jornalista Bruno Bacelar de Oliveira e sua primeira edição é datada do dia 27 de maio de 1931. O Avante se intitulava independente e corajoso, lutava contra o poder político dominante, luta essa que aprisionou Barcelar por três dias em Salvador e, ao retornar para Conquista, teve seu jornal incendiado na noite do dia 3 de novembro de 1933.

De caráter político conservador, O Conquistense surge na década de 50 com o lema Jornal político e noticioso dedicado aos interesses regionais, como se denominava. Circulou sua primeira edição no dia 1º de janeiro de 1956 e teve como diretor, em sua fase inicial, o médico Arthur Seixas Pereira e como redator chefe o comerciante Pedro Lopes Ferraz dos Santos, aparecendo mais uma vez como colaborador o escritor Camilo de Jesus Lima.

O forte engajamento político na antiga imprensa conquistense baseava-se na disputa pelo poder local, os jornais espelhavam assuntos de interesse regionais e nas contendas entre os partidos políticos nacionais. Foi na década de 60, quando Jânio Quadros interrompeu o governo de João Goulart – eleito vice-presidente pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) –, após ter renunciado o cargo de presidente em busca de maior popularidade, que eclodiu o golpe militar de 64, que durou até 1980.

O Conquistense em sua segunda fase liderada pelo advogado Franklin Ferraz, abrigou os dissidentes udenistas que era um partido de direita, travou combate contra a administração  do então presidente Getúlio Vargas e criou condições para derrotar um grupo que já se mantinha no poder a 18 anos. Com isso a situação se agravou de tal forma, que o jornal suspendeu a circulação no fim de novembro de 1959 alegando que estava sendo ameaçado de “empastelamento”, que significava a destruição das instalações da redação de um jornal.

O principal jornal de esquerda existente em Vitória da Conquista durante a ditadura era O Combate, que fazia oposição ao direitista O Sertanejo e apoiava o prefeito José Fernandes Pedral Sampaio juntamente com João Goulart, conhecido popularmente como Jango. Consequentemente foram presos os jornalistas Aníbal Lopes Viana – dono do O Jornal de Conquista – e Reginaldo Santos – diretor do jornal O Combate – ambos apoiavam o partido de esquerda liderado por Jango.

O historiador e advogado Ruy Medeiros, declarou que com o golpe militar em 1964, que depôs o então presidente João Goulart, grandes jornais de circulação apoiaram os militares e muitos até se autocensuraram temendo repressão. O momento era de crise política, econômica e social. “Em 64 o que acontece em Conquista: prisões, cassações, muitos respondendo a inquéritos policiais militares, porém foram levados a julgamentos, denunciados pelo promotor militar e condenados”, afirmou.

Medeiros afirmou ainda que por causa da censura, os jornais com posições políticas claras e contrárias ao regime militar, deixavam de existir. “Assim como a maioria dos jornais do interior baiano, hoje não se tem um jornal com posição política forte [na cidade de Vitória da Conquista], apenas notas. E como são patrocinados pela prefeitura fazem mais uma prestação de serviços do que um jornal de cunho político atuante”.

Apesar dos inúmeros jornais que circularam em Vitória da Conquista, mesmo não dando certo, a imprensa conquistense foi considerada forte. “Foi no final da década de 90, início dos anos 2000, que o impresso começou a cair. O advento da internet proporcionou isso”, aponta o jornalista Jeremias Macário. No início da década de 90 a Tv Sudoeste surge na cidade, emissora ligada a Rede Bahia, afiliada da Rede Globo. No ano seguinte, 1991,  instalou-se na cidade a sucursal do jornal A Tarde – de Salvador. A Opinião, Impacto, Radar e o Hoje eram alguns dos jornais que circulavam na cidade. Foi neste período que os primeiros jornalistas formados na área começaram a chegar à Vitória da Conquista.

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